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ESG

Indicadores de Governança e a ABNT NBR ISO 37005:2026: o novo mapa estratégico para conselhos, ESG, SGI e Compliance

Helane Rezende
Helane Rezende
Indicadores de Governança e a ABNT NBR ISO 37005:2026: o novo mapa estratégico para conselhos, ESG, SGI e Compliance
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A ABNT NBR ISO 37005:2026 não é mais uma lista de KPIs prontos. É o método que faltava para o conselho, o compliance, o SGI e o ESG construírem indicadores que realmente sustentam uma decisão. O erro mais comum, e mais caro, é medir o que foi feito quando a decisão exige medir o que realmente mudou. Quem resolve isso primeiro deixa de reportar e passa a decidir junto com o board.

Fato regulatório A ABNT NBR ISO 37005:2026, publicada em 16/06/2026 e adoção idêntica da ISO 37005:2024, ensina como construir e usar indicadores de governança. É o "manual de instruções" da ISO 37000:2022, que define os 11 princípios de governança: a 37005 responde como medir se eles funcionam na prática.
Risco Muitas empresas medem o que foi feito (saída) quando precisam medir o que realmente mudou (impacto). Essa confusão leva a decisões erradas mesmo com dados "corretos". Ainda não é norma obrigatória, mas já está virando referência de mercado para investidores, auditores e conselhos.
Oportunidade Quem domina essa lógica primeiro dentro da empresa deixa de ser "quem produz relatório" e passa a ser quem estrutura a informação que o conselho usa para decidir — a virada de protagonismo para ESG, SGI, QSMS e compliance.
ABNT ISO 37000 ISO 37005 GRC ESG SGI QSMS
Veja como a Greenlegis transforma dado disperso de ESG, SGI e compliance em indicador que o conselho usa para decidir. Agendar demonstração

Todo conselho de administração já ouviu, em algum momento, a mesma frase incômoda: "os números estão bons, mas alguma coisa não fecha". É o sintoma clássico de uma governança que mede muito e enxerga pouco. Relatórios cheios de indicadores, dashboards coloridos, KPIs em cascata, e ainda assim decisões tomadas no escuro, sem uma real compreensão de causa e efeito entre o que a organização faz e o que ela realmente entrega às partes interessadas.

A publicação da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT NBR ISO 37005:2026, chega exatamente para endereçar um ponto cego. Não se trata de mais um conjunto de métricas para inflar relatórios de sustentabilidade. Trata-se de um método para que o órgão de governança escolha, entre as opções disponíveis, aquela que de fato contribui para o propósito organizacional, com o nível de certeza necessário para uma decisão responsável.

Para quem atua em ESG, SGI, QSMS, GRC e compliance, este é o momento de sair da posição de quem "produz relatório" para a posição de quem estrutura a informação que o conselho usa para decidir. Este artigo explica o que a norma estabelece, o que ela exige na prática e por que esse é um dos temas mais estratégicos que um board pode discutir em 2026.

 

O que é, afinal, a ABNT NBR ISO 37005:2026

A ABNT NBR ISO 37005:2026, primeira edição, foi publicada em 16 de junho de 2026, com projeto submetido à Consulta Nacional entre 29 de abril e 28 de maio de 2026. Ela é uma adoção idêntica, em conteúdo técnico, estrutura e redação, da ISO 37005:2024, elaborada pelo comitê técnico ISO/TC 309, o mesmo responsável pela ISO 37000, a norma internacional de referência sobre governança de organizações.

O escopo oficial, conforme o texto da própria norma, é fornecer orientação aos órgãos de governança sobre como abordar o desenvolvimento e o uso de indicadores em suas atividades de governança. O documento não é dirigido apenas a especialistas técnicos: ele é elaborado para ser relevante a uma gama de outras partes interessadas internas e externas à organização, ajudando a melhorar a qualidade das informações sobre as quais avaliam e tomam decisões relativas à governança da organização.

Um ponto importante, muitas vezes mal compreendido quando a norma é comentada de forma superficial: a ISO 37005 não define indicadores de governança eficaz. Ela define como desenvolver e usar indicadores, qualquer que seja o tema de governança em análise. É uma norma de método, não de conteúdo pronto. Isso significa que ela não entrega uma lista de KPIs para copiar e colar, e sim uma estrutura de raciocínio para que cada organização construa os indicadores que fazem sentido para o seu propósito, seu contexto e seu apetite a risco.

A norma se aplica a todas as organizações, independentemente de tipo, porte, localização, estrutura ou propósito, e tem como pré-requisito a ABNT NBR ISO 37000:2022, que estabelece os onze princípios de governança organizacional aos quais a ISO 37005 se conecta diretamente.

Quadro de referência ISO 37005: o que a norma é e o que ela não é

Antes de aplicar a ISO 37005 na estrutura de governança, vale alinhar expectativas: a norma resolve um problema específico de método, não entrega um pacote pronto de métricas.

Comparativo entre o que a norma ISO 37005 é e o que ela não é
A norma é A norma não é
Um método, uma metodologia para desenvolver e escolher indicadores de governança Uma lista de KPIs prontos para copiar
Aplicável a qualquer organização, tema e porte Específica de ESG, SGI ou compliance — serve para qualquer tema de governança
Dependente da ISO 37000:2022 como pré-requisito normativo Substituta da ISO 37000
Voluntária Obrigatória por lei

 

Por que isso virou pauta de conselho, e não só de compliance

Existe uma tendência clara: conselhos brasileiros estão relatando menos confiança na qualidade da informação que embasa suas decisões, especialmente em temas de risco ambiental e tecnologia. A segunda edição da pesquisa Perspectiva dos Conselheiros e Executivos, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), lançada em fevereiro de 2026 com 349 respostas de conselheiros, consultivos e membros de diretoria, mostrou que os próprios respondentes se consideram menos preparados para discutir desastres ambientais, mudanças climáticas e o avanço da inteligência artificial, mesmo com a perspectiva geral de ambiente de negócios sendo majoritariamente neutra a boa. Entre as prioridades de investimento para os próximos 12 a 18 meses apontadas pelos administradores estão expansão de mercado, capital humano e inteligência artificial.

Esse dado é revelador. Ele mostra que o problema não é falta de dado, é falta de indicador adequado para os temas que mais geram incerteza no board. E incerteza, segundo a própria estrutura conceitual usada pela ISO 37005, é a fonte-raiz do risco: qualquer tipo de deficiência de informação que seja importante em relação aos objetivos organizacionais.

Há também um componente de custo evitável. Dados da Controladoria-Geral da União (CGU) indicam que empresas com programas de integridade efetivamente estruturados e monitorados conseguem, em média, uma redução de aproximadamente 39% no valor de multas aplicadas em processos de responsabilização administrativa. Essa redução não vem de sorte: vem da capacidade de a organização demonstrar, com indicadores adequados, que sua estrutura de governança funcionou, mesmo diante de uma falha pontual. É exatamente o tipo de "asseguração" que a ISO 37005 trata na seção sobre características de um indicador.

Some-se a isso o Código Brasileiro de Governança Corporativa - Companhias Abertas, elaborado pelo GT Interagentes sob coordenação do IBGC com a participação de entidades como B3, CVM, ABRASCA e IBRI, que já orienta avaliação periódica do conselho e de seus conselheiros, com base no princípio de que a governança deve ser mensurável, auditável e comparável ao longo do tempo. A ISO 37005 fornece justamente a metodologia que faltava para operacionalizar essa exigência com rigor técnico.

Para o profissional de ESG, SGI, QSMS e compliance, a leitura estratégica é direta: o conselho está sob pressão para tomar decisões mais bem informadas em temas exatamente do domínio desses profissionais (risco ambiental, integridade, dados, tecnologia), mas sem uma metodologia clara de indicadores. Quem levar essa metodologia para dentro da organização primeiro se torna, na prática, o intérprete de confiança do board.

Por que agora Três sinais convergem para o mesmo ponto
Pesquisa IBGC · fev/2026 · 349 respondentes Conselheiros brasileiros se sentem menos preparados para discutir risco ambiental, mudanças climáticas e IA — exatamente os temas mais nebulosos e mais carentes de bons indicadores.
Dado da CGU Empresas com programa de integridade bem estruturado e monitorado reduzem em média ~39% o valor das multas em processos de responsabilização administrativa — e essa redução depende de provar, com indicador adequado, que a governança funcionou.
IBGC / B3 / CVM / ABRASCA / IBRI O Código Brasileiro de Governança Corporativa já exige que a governança seja mensurável, auditável e comparável ao longo do tempo. A ISO 37005 é a metodologia que faltava para cumprir isso com rigor.
Conclusão prática

O conselho precisa de indicadores melhores exatamente nos temas que ESG, SGI e compliance já dominam. Quem chegar primeiro com a metodologia certa vira o intérprete de confiança do board.

 

A espinha dorsal conceitual: da entrada ao impacto

A ISO 37005 organiza toda a discussão de indicadores em torno de uma cadeia de causalidade que a norma chama de teoria da mudança. Ela é simples de entender, mas poderosa quando aplicada com disciplina.

A lógica segue esta sequência: entradas (os recursos que a organização compromete, incluindo capital natural, social, humano e financeiro) alimentam atividades; atividades geram saídas, que são a medida direta do que foi produzido; saídas provocam mudanças nos resultados organizacionais, que são os aspectos que efetivamente têm potencial de mudar em função de uma decisão do órgão de governança; e a mudança nesses resultados é o que a norma define tecnicamente como impacto.

A norma é explícita ao afirmar que uma atividade pode levar a múltiplos resultados organizacionais, que não há lista definitiva de resultados possíveis e que mudanças em um resultado organizacional frequentemente provocam mudanças em outros, formando uma cadeia não linear, com efeitos de retroalimentação. Por isso a ISO 37005 recomenda que a organização trabalhe com duas perspectivas simultâneas: partindo do propósito organizacional em direção aos impactos esperados (de trás para frente), e partindo das entradas e dependências em direção às atividades (de frente para trás), buscando coerência entre as duas leituras.

Essa distinção resolve um erro extremamente comum, e caro, em relatórios de ESG e compliance: usar indicador de saída (quanto foi feito) quando a decisão exige indicador de impacto (quanto efetivamente mudou). A norma traz um exemplo direto, adaptado aqui para o contexto de gestão de fornecedores e capacitação: um programa de treinamento pode capacitar 20 pessoas em uma opção e 15 em outra; se apenas 10 da primeira turma realmente adquirem a competência, contra 15 da segunda, a opção 2 é objetivamente superior, mas uma decisão baseada apenas no número de treinados (saída) escolheria, de forma equivocada, a opção 1. Esse é exatamente o tipo de armadilha que áreas de SGI e gestão de fornecedores enfrentam ao medir eficácia de capacitação, auditoria ou plano de ação.

Como a norma organiza o raciocínio A cadeia de causa e efeito: da entrada ao impacto

Teoria da mudança segundo a ISO 37005

Uma atividade pode gerar vários resultados diferentes.
Resultados interagem entre si — não é uma linha reta, há retroalimentação.
Por isso é preciso olhar em duas direções: do propósito até o impacto esperado, e das entradas até as atividades — e checar se as duas leituras batem.
O erro mais caro e mais comum Usar indicador de saída quando a decisão exige indicador de impacto.

Exemplo da própria norma, adaptado a treinamento e fornecedores

Parece melhor pela saída

Opção A

Capacita 20 pessoas, mas apenas 10 realmente adquirem a competência.

Vence pelo impacto

Opção B

Capacita 15 pessoas, e todas as 15 adquirem a competência.

Olhando só a saída ("quantos treinei"), a Opção A parece melhor. Olhando o impacto ("quantos realmente aprenderam"), a Opção B é objetivamente superior. É exatamente o tipo de armadilha que aparece em métricas de treinamento, auditoria e planos de ação.

A estrutura formal de um indicador segundo a norma

A ISO 37005 propõe uma estrutura mínima e replicável para qualquer indicador: uma quantidade DE uma qualidade ou atributo, seguida de POR ou POR MEIO DE um contexto (social, ambiental ou econômico) e/ou de uma dimensão de responsabilização (decisão do órgão de governança, ação organizacional, expectativa das partes interessadas). O exemplo dado pela própria norma é elucidativo: custo de aquisição de clientes por segmento de mercado por canal de cliente. A lógica é idêntica para qualquer indicador de compliance, SGI ou ESG: por exemplo, número de não conformidades críticas por unidade operacional por trimestre, ou percentual de fornecedores críticos reavaliados por categoria de risco por ciclo de auditoria.

O ponto central é que todo indicador carrega, embutido, algum grau de incerteza, e essa incerteza é, ela própria, um risco a ser gerenciado. A norma reforça que essa incerteza muda à medida que novos dados se tornam disponíveis, o que justifica revisão periódica dos indicadores, não apenas dos resultados que eles medem.

Método prático Como montar um indicador (fórmula da norma)
Comparação entre indicadores genéricos e indicadores estruturados segundo a fórmula da ISO 37005
Genérico (evitar) Estruturado pela norma (usar)
"Número de treinamentos realizados" "% de colaboradores de áreas de alto risco com nota mínima de proficiência em compliance, por unidade de negócio, por semestre"
"Número de auditorias feitas" "Número de não conformidades críticas por unidade operacional por trimestre"
"Fornecedores avaliados" "% de fornecedores críticos reavaliados por categoria de risco por ciclo de auditoria"
Regra de ouro

Todo indicador carrega incerteza embutida. Isso não é falha — é algo a ser comunicado e revisado periodicamente, não escondido.

A taxonomia da ISO 37005 na prática de ESG, SGI e compliance

A norma classifica indicadores em duas grandes famílias, com implicações práticas diretas para quem estrutura sistemas de gestão.

Indicadores de entrada e de meios medem os recursos dos quais a organização depende, independentemente de como foram obtidos, incluindo recursos tradicionalmente invisíveis em relatórios financeiros, como biodiversidade e trabalho não remunerado ao longo da cadeia de suprimentos. Na prática de SGI, isso equivale a indicadores de recursos alocados a aspectos ambientais, horas de capacitação disponibilizadas, ou orçamento de compliance por área de risco.

Indicadores de atividade e de saída medem o que foi efetivamente feito, de forma qualitativa ou quantitativa. Correspondem, por exemplo, a número de auditorias realizadas, políticas publicadas, treinamentos concluídos, ou não conformidades registradas em um período.

Indicadores de impacto e finais medem resultados organizacionais, incluindo resultados de bem-estar, e a avaliação de impacto propriamente dita, ou seja, a medição da importância relativa desses impactos. Aqui entram, por exemplo, a redução real de acidentes de trabalho atribuível a uma mudança de processo, ou a queda mensurável no tempo de resposta a incidentes de segurança da informação após uma reestruturação de governança de dados.

Taxonomia da norma As três famílias de indicadores

A ISO 37005 organiza qualquer indicador em uma de três famílias, conforme o ponto da cadeia de causa e efeito que ele mede.

As três famílias de indicadores segundo a ISO 37005: entrada, atividade/saída e impacto
Tipo O que mede Exemplos práticos
Entrada / meios Recursos usados, inclusive os "invisíveis" nos relatórios financeiros: biodiversidade, trabalho não remunerado na cadeia. Orçamento de compliance por área de risco; horas de capacitação disponibilizadas.
Atividade / saída O que foi efetivamente feito. Auditorias realizadas; políticas publicadas; treinamentos concluídos.
Impacto / final A mudança real no resultado organizacional. Redução real de acidentes atribuível a mudança de processo; queda no tempo de resposta a incidentes após reestruturação de governança de dados.

A norma detalha ainda, na Tabela 1 do documento, sete tipos de informação necessários quando o objetivo é efetivamente medir impacto: partes interessadas e suas características; linha de base, limite de resultado organizacional, mudança e duração; limiares e alocações; causalidade e atribuição; avaliação da importância relativa; e apetite e tolerância ao risco. Ignorar qualquer uma dessas dimensões, alerta a norma, aumenta a chance de uma decisão aquém do ideal ser tomada, mesmo quando os dados coletados estão tecnicamente corretos.

Há também a distinção entre indicadores objetivos, confirmáveis por referência a uma fonte independente (dados ambientais e econômicos, por exemplo), e indicadores subjetivos, voltados à medição de percepções, como confiança ou satisfação relatada por uma parte interessada. A norma recomenda combinar os dois tipos para reduzir incerteza e aumentar a confiança de que a mudança medida é real.

Requisito da norma 7 elementos para medir impacto de verdade

Para medir impacto de verdade, a norma pede 7 elementos (Tabela 1 do documento). Não basta ter dado: é preciso ter todos os elementos abaixo.

Partes interessadas e suas características
Linha de base
Limite do resultado organizacional, mudança e duração
Limiares e alocações
Causalidade e atribuição
Avaliação da importância relativa
Apetite e tolerância a risco
Faltar qualquer um desses itens aumenta o risco de decisão ruim — mesmo com dado tecnicamente correto.
Bônus
Objetivo Dados verificáveis por fonte independente.
Subjetivo Percepção, satisfação, confiança.

Combine os dois. Um sem o outro esconde pontos cegos — por exemplo, número de denúncias (objetivo) pode mascarar subnotificação; uma pesquisa de percepção (subjetivo) revela isso.

As armadilhas que a norma nomeia, e que todo profissional de compliance já viu acontecer

Um dos trechos mais úteis da ISO 37005 para quem trabalha na linha de frente de ESG, SGI e compliance é a lista de consequências não intencionais decorrentes da má seleção e uso de indicadores. A norma cita explicitamente a Lei de Goodhart: quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida, porque o desempenho passa a ser perseguido independentemente das consequências reais. Isso explica fenômenos que profissionais de compliance reconhecem imediatamente: colaboradores que "fecham" checklists de auditoria sem de fato mitigar o risco subjacente, ou metas de treinamento cumpridas com presença registrada, mas sem retenção real de conteúdo.

A norma também alerta para o foco excessivo em indicadores já existentes, sem abertura para mudança quando necessário; a medição de algo que pode ser medido no lugar do que precisa ser medido; a chamada "medição de jogos" (gaming), em que o indicador é manipulado para parecer favorável; e a falta de consideração de informação contextual junto à medição. Por fim, e este é um lembrete valioso para qualquer relatório de sustentabilidade ou dashboard de compliance: um indicador é apenas um indicador, e precisa ser interpretado, nunca lido de forma isolada e literal.

Outro risco estrutural apontado pela norma é a falta de responsabilização: quando quem sofre as consequências de uma decisão não consegue responsabilizar a organização, ou só consegue com muita dificuldade, cresce a chance de que a organização simplesmente não meça essas consequências. Isso tem implicação direta para áreas de ESG que lidam com impactos em comunidades vulneráveis, cadeias de fornecedores em geografias de menor governança, ou públicos com pouco poder de barganha frente à empresa.

Há ainda o risco de não alinhamento entre propósito e sustentabilidade, quando os impactos decorrentes de como a organização opera (os meios) destoam dos impactos decorrentes do propósito que ela busca (os fins). A norma reconhece que a busca por um propósito com consequências que prejudiquem os princípios da ISO 37000 não seria responsável nem viável, uma frase que resume bem por que ESG deixou de ser apenas discurso institucional para se tornar critério de governança de risco.

Alerta de risco Armadilhas que todo profissional de compliance já viu

A ISO 37005 nomeia essas consequências não intencionais. Reconhecer o sintoma é o primeiro passo para corrigir o indicador antes que ele distorça a decisão.

Armadilhas comuns na seleção e uso de indicadores de governança, segundo a ISO 37005, com três colunas: armadilha, o que é e sintoma reconhecível
Armadilha O que é Sintoma reconhecível
Lei de Goodhart Quando a medida vira meta, ela deixa de ser boa medida. Checklist "fechado" sem risco real mitigado; presença registrada sem retenção de conteúdo.
Inércia de indicador Manter o indicador antigo só porque já existe. Relatório repete os mesmos KPIs ano após ano, mesmo quando o contexto mudou.
Medir o fácil, não o certo Medir o que é mensurável em vez do que importa. Foco em métricas simples de coletar, ignorando o que de fato decide o negócio.
Gaming Manipular o indicador para parecer bom. Números "maquiados" sem mudança real.
Falta de contexto Indicador lido isolado, sem interpretação. Dashboard bonito, decisão errada.
Falta de responsabilização Quem sofre o impacto não consegue cobrar a empresa. Comunidades vulneráveis ou fornecedores em geografias de baixa governança simplesmente não são medidos.
Descolamento propósito x meios Como a empresa opera contradiz o que ela diz buscar. Discurso ESG que não bate com a operação real.

Do princípio ao indicador: como a norma conecta as duas normas

A contribuição mais estratégica da ISO 37005 talvez seja a Tabela 2 do documento, que conecta cada um dos onze princípios da ABNT NBR ISO 37000:2022 a um conjunto específico de decisões e ao tipo de indicador recomendado. A norma agrupa os onze princípios em três blocos de raciocínio, muito úteis para organizar a pauta de um comitê de auditoria ou de um comitê de riscos:

    • Decidir o que fazer e quando fazer: Princípio 1 (Propósito), Princípio 2 (Geração de Valor) e Princípio 3 (Estratégia). Aqui a norma recomenda principalmente indicadores de avaliação de impacto para definir o propósito organizacional, e indicadores de saída para o comprometimento formal com propósito e valores.
    • Verificar se está funcionando: Princípio 4 (Supervisão), Princípio 5 (Responsabilização), Princípio 6 (Engajamento das Partes Interessadas), Princípio 7 (Liderança), Princípio 8 (Dados e Decisões) e Princípio 9 (Governança de Riscos). Este bloco mistura indicadores de entrada, de impacto e cenários de valoração de impacto, com destaque para o Princípio 9, cuja governança de riscos deve ser consistente com a ABNT NBR ISO 31000:2018.
    • Sistemas nos quais a organização opera: Princípio 10 (Responsabilidade Social) e Princípio 11 (Viabilidade e Desempenho ao Longo do Tempo). Este é o bloco mais diretamente conectado à agenda ESG, e a norma recomenda, entre outros pontos, medir o desempenho em relação a objetivos de comportamento socialmente responsável usando avaliação de impacto e indicadores de entrada, além de relatar esses objetivos de forma clara e transparente às partes interessadas, com evidência que sustente as alegações feitas.

Essa tabela funciona, na prática, como uma matriz de priorização para qualquer área de GRC que precise decidir onde investir esforço de mensuração primeiro: ela mostra exatamente qual tipo de indicador o board precisa para cada decisão de governança, evitando o esforço disperso de medir tudo um pouco e não sustentar nenhuma decisão de fato.

Matriz de priorização Conectando aos 11 princípios da ISO 37000

A norma agrupa os 11 princípios em 3 blocos de decisão — útil para organizar a pauta de comitês de auditoria e de risco.

Conexão entre os três blocos de decisão, os 11 princípios da ISO 37000 e o tipo de indicador recomendado pela ISO 37005
Bloco Princípios Indicador recomendado
Decidir o que e quando fazer 1. Propósito 2. Geração de Valor 3. Estratégia Impacto para definir propósito + saída para comprometimento formal
Verificar se está funcionando 4. Supervisão 5. Responsabilização 6. Engajamento das Partes Interessadas 7. Liderança 8. Dados e Decisões 9. Governança de Riscos Mix de entrada impacto avaliação de impacto Princípio 9 deve dialogar com a ISO 31000
Sistemas em que a organização opera 10. Responsabilidade Social 11. Viabilidade e Desempenho ao Longo do Tempo Avaliação de impacto entrada com relato transparente e evidência

O que profissionais de ESG, SGI, QSMS e Compliance precisam fazer agora

A leitura da norma é clara, mas a aplicação prática exige disciplina. Aqui está um roteiro direto para quem lidera ou apoia a estrutura de indicadores dentro da organização.

1. Faça a avaliação de materialidade antes de escolher qualquer indicador. A norma é explícita: a avaliação da materialidade é uma etapa crítica que precede a seleção de indicadores, e a informação que é material depende do propósito organizacional e é, em última instância, um julgamento que pode mudar ao longo do tempo. Sem esse passo, qualquer indicador escolhido corre o risco de medir o irrelevante com muita precisão.

2. Audite seus indicadores atuais pela pergunta certa: eles medem saída ou impacto? Revise seus relatórios de SGI, ESG e compliance e classifique cada indicador como entrada, saída ou impacto. Se a maior parte dos indicadores usados para decisões estratégicas forem indicadores de saída, há um risco real de decisão aquém do ideal, especialmente em temas onde diferentes opções produzem resultados organizacionais distintos.

3. Adote a estrutura "quantidade DE qualidade POR contexto/responsabilização" para redesenhar seus KPIs.Em vez de indicadores genéricos como "número de treinamentos realizados", use a estrutura da norma para chegar a algo acionável, como "percentual de colaboradores de áreas de alto risco que atingiram nota mínima de proficiência em compliance por unidade de negócio por semestre".

4. Monte, mesmo que de forma simplificada, sua cadeia de valor (Figura 2 e Figura 4 da norma). Desenhe, para cada objetivo estratégico de ESG, SGI ou compliance, o caminho de entradas até impacto, identificando onde estão os pontos de retroalimentação e onde a organização está medindo apenas o meio do caminho.

5. Combine indicadores objetivos e subjetivos deliberadamente. Em temas como cultura de integridade, clima de segurança psicológica ou percepção de justiça em processos de compliance, um indicador puramente objetivo (número de denúncias recebidas, por exemplo) pode mascarar um problema real de subnotificação. Complementar com indicadores subjetivos, como pesquisas de percepção, reduz esse ponto cego, conforme recomenda a norma.

6. Estabeleça, junto ao órgão de governança, o nível de asseguração exigido para cada indicador. A norma recomenda que, acima de um determinado nível de relevância definido pelo conselho, seja exigida avaliação independente e imparcial dos indicadores. Isso é especialmente relevante para dados usados em relatórios públicos de ESG e para indicadores que sustentam decisões de risco material.

7. Blinde-se contra a Lei de Goodhart institucionalizando revisão crítica periódica. Nunca transforme um indicador em meta permanente sem revisão. Estabeleça ciclos formais (trimestrais ou semestrais) para perguntar: este indicador ainda mede o que precisamos medir, ou já virou apenas um número a ser perseguido?

8. Reduza o volume de indicadores no board, sem perder profundidade operacional. A norma recomenda desenvolver um processo de agregação que mantenha o detalhe subjacente disponível quando necessário, mas que leve ao conselho apenas o que é material para decisões de propósito, estratégia e geração de valor. Excesso de indicadores no relatório do board não é rigor, é ruído.

9. Trate a incerteza como um dado a ser comunicado, não escondido. Sempre que um indicador for apresentado ao conselho, comunique também o grau de confiança da medição e as limitações metodológicas. Isso é parte da responsabilização, e é o que diferencia um relatório de compliance maduro de um relatório meramente decorativo.

10. Prepare-se para o próximo ciclo de conselhos mais exigentes. A pesquisa do IBGC mostrou conselheiros menos confortáveis com risco ambiental e tecnológico. Isso é uma oportunidade concreta: o profissional de ESG, SGI e compliance que chegar ao board com indicadores estruturados segundo a lógica da ISO 37005, e não apenas com dashboards genéricos, se posiciona como a referência técnica que falta na sala.

Coloque em prática Checklist de aplicação prática Toque em cada item para marcar como concluído

Por que isso é estratégico, e não apenas operacional

É tentador tratar indicadores como assunto de bastidor, um detalhe técnico de relatório. A ISO 37005 desmonta essa visão ao afirmar, já na sua introdução, que os resultados organizacionais da governança dependem das decisões tomadas pelos órgãos de governança, das informações usadas para apoiar essas decisões e da execução dessas decisões. Em outras palavras: a qualidade da decisão do conselho é, no limite, refém da qualidade do indicador que chega até ele.

Isso reposiciona completamente o papel do profissional de ESG, SGI, QSMS e compliance dentro da organização. Ele deixa de ser o responsável por "cumprir a norma" e passa a ser o arquiteto da informação que sustenta a estratégia. Quando uma área de compliance apresenta ao conselho não apenas o número de não conformidades, mas uma avaliação de impacto que mostra como a mudança em um processo de gestão de fornecedores reduziu risco de multa, aumentou retenção de contratos críticos e melhorou o tempo de resposta a incidentes, ela deixa de ser vista como centro de custo e passa a ser vista como geradora de vantagem competitiva.

O mesmo vale para ESG: relatórios de sustentabilidade que apresentam apenas indicadores de saída (quantidade de iniciativas realizadas) competem por atenção com dezenas de outros relatórios semelhantes no mercado. Relatórios que apresentam avaliação de impacto, com linha de base, limiar e evidência de causalidade, na estrutura recomendada pela ISO 37005, se diferenciam e sustentam decisões de investidores, financiadores e parceiros comerciais que hoje exigem rigor equivalente ao de uma demonstração financeira.

Essa é, no fundo, a virada de protagonismo que este momento regulatório oferece. O profissional de QSMS, SGI, ESG e compliance que domina a lógica de indicadores da ISO 37005 não está apenas evitando multa ou apagando incêndio: está gerando a informação que orienta escolha estratégica, reduz risco de decisão aquém do ideal e cria valor competitivo mensurável para a organização. Esse é o papel de protagonista que a alta administração espera, e que poucas áreas de compliance ainda entregam de fato.

Mudança de papel De quem cumpre norma a quem sustenta a estratégia

A qualidade da decisão do conselho depende diretamente da qualidade do indicador que chega até ele. Isso muda o papel do profissional de ESG, SGI, QSMS e compliance.

Antes

"Quem cumpre a norma e produz relatório."

Depois

"Quem estrutura a informação que sustenta a estratégia."

Deixando de ser visto como centro de custo e passando a gerar vantagem competitiva mensurável.

Como a Greenlegis apoia essa transformação

Estruturar indicadores segundo a lógica de entrada, atividade, saída e impacto, com materialidade, asseguração e conexão direta aos onze princípios da ISO 37000, não é um exercício pontual de planilha. É um processo contínuo de governança de dados, que exige rastreabilidade, atualização constante frente a mudanças regulatórias e conexão entre módulos que, na maioria das empresas, ainda vivem isolados em áreas diferentes.

É exatamente esse o papel da plataforma Greenlegis. Os sistemas de Requisitos Legais (Conformidade Legal), Gestão de Riscos e Oportunidades, Metas ESG, Compromissos Corporativos, Desvios e Ocorrências e Planos de Ação foram desenhados para que cada evidência de compliance, cada não conformidade e cada meta ambiental, social e de governança gere, automaticamente, o rastro de dado necessário para compor indicadores de entrada, saída e impacto, sem depender de coleta manual dispersa em e-mails e planilhas.

O sistema de Gestão de Mudanças, por exemplo, permite associar cada alteração normativa ou operacional a um conjunto de indicadores de acompanhamento, exatamente na lógica de cadeia de valor descrita pela ISO 37005: uma mudança de processo (atividade) gera uma saída mensurável, que por sua vez é acompanhada até o resultado organizacional esperado. A plataforma de Gestão de Fornecedores permite medir não apenas quantos fornecedores foram avaliados (saída), mas a evolução real do risco na cadeia de suprimentos ao longo do tempo (impacto), com histórico auditável para fins de asseguração.

Para o conselho, isso significa relatórios de compliance, SGI e ESG que já nascem estruturados na lógica que a própria norma recomenda, prontos para sustentar decisões de propósito, estratégia e geração de valor, com o nível de rastreabilidade que investidores, reguladores e auditorias independentes hoje exigem. Para o profissional de ESG, SGI, QSMS e compliance, isso significa menos tempo compilando planilhas e mais tempo interpretando dado, exercendo justamente o papel estratégico que a ISO 37005 e o próprio conselho estão pedindo.

Se sua organização está revisando sua estrutura de indicadores de governança, avaliando aderência à ABNT NBR ISO 37005:2026 ou simplesmente buscando transformar compliance, SGI e ESG em vantagem competitiva mensurável perante o board, a Greenlegis é a parceira que reúne, em uma única plataforma, a tecnologia e o conhecimento regulatório necessários para essa transição. Agende uma demonstração e veja como transformar dado disperso em indicador de decisão.

 

Perguntas frequentes

O que é a ABNT NBR ISO 37005:2026? É a norma brasileira, adoção idêntica da ISO 37005:2024, que orienta órgãos de governança sobre como desenvolver e usar indicadores em suas atividades de governança. Foi publicada em 16 de junho de 2026 pela ABNT, com base no trabalho do comitê técnico ISO/TC 309, o mesmo responsável pela ISO 37000.

A ISO 37005 substitui a ISO 37000? Não. A ISO 37005 depende da ABNT NBR ISO 37000:2022 como referência normativa e se conecta diretamente aos onze princípios de governança nela definidos. A ISO 37000 estabelece os princípios de governança; a ISO 37005 orienta como medir se e como esses princípios estão sendo colocados em prática, por meio de indicadores.

Qual a diferença entre indicador de saída e indicador de impacto? Indicador de saída mede o que foi feito, como número de treinamentos realizados ou auditorias concluídas. Indicador de impacto mede a mudança real em um resultado organizacional decorrente dessas atividades, como a redução comprovada de não conformidades atribuível a uma mudança de processo. A norma alerta que usar apenas indicadores de saída para decisões que exigem informação de impacto aumenta o risco de escolhas aquém do ideal.

A ISO 37005 é obrigatória? Não. Como a maioria dos documentos técnicos da ABNT e das normas ISO, a ISO 37005 é voluntária e não substitui leis, decretos ou regulamentos, que têm precedência sobre qualquer documento técnico ABNT. Ainda assim, ela pode ser referenciada em regulamentos técnicos e é cada vez mais usada como referência de mercado por investidores, auditores e conselhos.

Por que o conselho deveria se importar com isso, e não só a área de compliance? Porque a qualidade da decisão do órgão de governança depende diretamente da qualidade da informação usada para decidir. A pesquisa do IBGC de 2025 mostrou que conselheiros brasileiros se sentem menos preparados para temas como risco ambiental e tecnológico, exatamente onde indicadores mal estruturados mais prejudicam a tomada de decisão.

Como a Greenlegis ajuda a aplicar a ISO 37005 na prática? A plataforma Greenlegis estrutura, em módulos integrados de Requisitos Legais, Gestão de Riscos e Oportunidades, Metas ESG, Gestão de Fornecedores e Gestão de Mudanças, o rastro de dados necessário para compor indicadores de entrada, saída e impacto com rastreabilidade e nível de asseguração adequado para apresentação ao conselho.

Helane Rezende - OAB: 205.951
(Consultora Jurídica – GreenLegis Sustentabilidade)

 

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